Um corpo boiando no rio, que vai só onde o rio consegue ir, está feliz por estar morto.
É preciso aprender a sentir, tatear a água com o corpo, fazer a pele te revelar o meio.
É preciso afundar, às vezes é preciso. Já morri e renasci várias vezes neste dia,
é preciso aprender a sentir.
Minha mente está nervosa, dando formiga, porque eu ainda não sei como sentir; viver é ter culpa.
Existe a morte de não se viver e a morte de se viver de um outro jeito, por não saber no que me enquadro
eu fico louco, sem rumo, indo além de tudo, além de mim,
além do que se pode entender.
Meu corpo cai sem majestade, feio e vazio sobre a cama, e eu não sei o que fazer de mim porque eu não sei como sentir.
Na rua o tempo estancou quente e seco por culpa do silêncio.
A árvore ávida, altiva sobre o fundo branco do muro parou.
O dia parou e eu estou no meio,
sem sentir nada nesse ínterim,
nem calmo nem agitado, apenas parado.
Alguma coisa que havia antes começado subitamente não continua.
O céu parou azul e calmo.
Seu pai morreu e o cemitério é frio e calmo, cansado e calmo, vazio e calmo.
Te digo, é preciso aprender a seguir, é preciso aprender a nadar rio acima,
pra onde quiser.
Agora esteja de verdade, cada parte sua, sentidos agudos. O choro da água,
o vento no rosto, a paz que dá na pele, a terra se mostrando.
Saber ver a coisa, se concentrar disperso em aprender a enxergar.
É preciso aprender a não estar morto.

2 comentários:
A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida.
Que eu já tô ficando craque em ressureição.
Este poema é simplesmente lindo e, de uma profundidade que requer uma leitura cuidadosa.
Adorei! Parabéns!
Postar um comentário