Acredita-se que há bilhões de anos atrás éramos todos a mesma cabeça de alfinete esperando pra explodir, no meio de um lugar que ainda viria a existir. Antes disso a gente ainda não sabe no que acreditar, no que éramos antes, antes, antes, antes de estarmos prestes a explodir e nos tornar cada um um, antes de deixarmos de ser o mesmo ponto. Antes de virmos do nada a ser a vizinhança, o planeta, o universo. Tudo.
Será que a gente acredita mesmo que o tudo, no final das contas, uma hora surgiu do nada? Isso não faz muito sentido... é como se estivessem tentando me convencer de que foi Deus quem me criou e virou as costas sem nem esperar pra ver o resultado ou que ele está escondido em algum lugar jogando comigo e vendo se eu consigo fazer o que ele quer que eu faça sem ele precisar vir pessoalmente me mandar. Me distraindo pra eu não me perguntar de onde foi que ele surgiu. Em quem que Deus acredita.
A verdade é que, depois que a gente explodiu, depois que a gente deixou de ser um ponto em comum, a gente ficou foi muito sozinho. Eu queria que Deus existisse pra me fazer companhia. Pra me ver por dentro e saber o que eu quero dizer quando eu digo outra coisa com medo de ser entendido. É porque às vezes apesar de todas as minhas ligações eu me sinto um àtomo só. Eu preferia ser uma cabeça de alfinete inteira do que ser o universo inteiro e ser sozinho, imcompleto, sempre buscando o outro si mesmo. Por que afinal a gente precisou explodir? O que surgiu de tão maior entre nós que nos afastou tamanha distância?
Eu queria me explicar e deixar de ser um segredo, uma história tão distante que ninguém nunca vai saber quem inventou. Eu queria deixar de ser sobrenatural mas não dá, porque eu não comecei, eu não comecei e existir é sobrenatural! Se for então pra ser sobrenatural eu quero Deus. Quero que Deus exista pra eu não sentir que aconteço em vão... que é pra eu achar que alguém sabe o final da história, onde eu vou chegar e que seja alguém que eu acredite que tenha bom gosto, que seja Deus.
Não preciso que Deus exista de verdade, só que finja existir, nem precisa ser só amor. Só precisa saber o final, ser pra mim a linha contínua ao longo da qual eu possa ir rabiscando.
Ordem em Progresso
Um blogueiro ordinário:
- Mike Varão
- O que posso contar é a minha versão do mundo, que é na verdade tudo o que eu sou, porque a gente só é o que percebe.
terça-feira, 20 de abril de 2010
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Buraco
Eu gosto de parar no metrô e ver as ondas de pessoas indo e vindo, aprendi isso com uma amiga que entrava na balada com uma acompanhante imaginária de 9 anos. Eu fico pensando se eu consigo fazer parte desse mar de gente, mergulhar alí e me misturar. Será que eu consigo me sintonizar com essa força que movimenta essa cidade inteira, deixar ela me levar com essa mesma decisão?
O que eu sinto agora é que qualquer coisa que eu sinta não me interessa, não confio mais em sentir, eu quero é caminhar com essas pessoas, saber a hora de parar e de voltar, nessa dança zumbi, ir com elas a qualquer lugar que seja. Onde vai ser o piquenique? Semana que vem é aniversário da Vó de quem? Vai ter foto minha no álbum de família?
O que eu menos quero agora é pensar, não sei se eu consigo ser sensato, eu quero é me misturar nessa coisa maior, que pensa por mim, me julga, me condena, será que me salva?..
"Quem é que eu sou? Digam primeiro, e se eu gostar de ser a tal pessoa, então subo. Se não, fico aqui embaixo mesmo até que eu seja outro..."
Esse monstro rápido me leva de uma ponta à outra da cidade e depois às outras duas pontas transversais, formando uma cruz. Eu gosto de estar passando, das pessoas passando por mim, dessa agitação do dia; eu queria que fosse dia pra sempre, que a madrugada nunca chegasse com suas luzes amarelas tristes, com seus botecos sujos vazios de propaganda e de movimento.
E o único olho que me olhou de volta estava fraco, desaparecendo, só se mostrava quando a janela do trem passava por algum muro ou anúncio, e estava vazio. As pessoas passam e só sobram os espaços. Esses espaços entre as pessoas parecem ser o que é pra mim. Meu Deus, os espaços entre as pessoas são desertos!
Eu queria que essa queda fosse menos lenta, que não me deixasse tempo para inferências. Que não parasse em cada estação, que o meu destino e o dessa gente andassem mais perto, dando fim aos espaços vazios que resistem ao horário de pico.
O que eu sinto agora é que qualquer coisa que eu sinta não me interessa, não confio mais em sentir, eu quero é caminhar com essas pessoas, saber a hora de parar e de voltar, nessa dança zumbi, ir com elas a qualquer lugar que seja. Onde vai ser o piquenique? Semana que vem é aniversário da Vó de quem? Vai ter foto minha no álbum de família?
O que eu menos quero agora é pensar, não sei se eu consigo ser sensato, eu quero é me misturar nessa coisa maior, que pensa por mim, me julga, me condena, será que me salva?..
"Quem é que eu sou? Digam primeiro, e se eu gostar de ser a tal pessoa, então subo. Se não, fico aqui embaixo mesmo até que eu seja outro..."
Esse monstro rápido me leva de uma ponta à outra da cidade e depois às outras duas pontas transversais, formando uma cruz. Eu gosto de estar passando, das pessoas passando por mim, dessa agitação do dia; eu queria que fosse dia pra sempre, que a madrugada nunca chegasse com suas luzes amarelas tristes, com seus botecos sujos vazios de propaganda e de movimento.
E o único olho que me olhou de volta estava fraco, desaparecendo, só se mostrava quando a janela do trem passava por algum muro ou anúncio, e estava vazio. As pessoas passam e só sobram os espaços. Esses espaços entre as pessoas parecem ser o que é pra mim. Meu Deus, os espaços entre as pessoas são desertos!
Eu queria que essa queda fosse menos lenta, que não me deixasse tempo para inferências. Que não parasse em cada estação, que o meu destino e o dessa gente andassem mais perto, dando fim aos espaços vazios que resistem ao horário de pico.
domingo, 25 de janeiro de 2009
A Colméia
Na frente do espelho, os versos vinham sendo ensaiados repetidas vezes e dentro dos braços existia um espaço aflito, trêmulo, esperando ser preenchido pelo único ser capaz de preenchê-lo alí: o ser que preenchera todo o resto. Cada função monótona desse organismo agora se assistia, mobilizada num mesmo ritmo, como uma orquestra viscosa esticando carnes que bombeavam líquidos que banhavam toda a coisa.
Um estado de alerta eterno para o que só aconteceria dalí a algumas semanas - aquele conjunto de coisas bombeantes, viscosas e correntes não sabia agir muito convenientemente; como até hoje não sabe.
O que aconteceria enfim era o corpo esperado, embaixo do qual ele caberia tão perfeitamente bem. A plenitude que se manifestava ao abraçá-lo apertado, sentindo que aquilo estava mesmo alí, não poderia ser explicada a um corpo que nunca a tenha sentido. Andar com ele na rua, na areia quente era andar rumo a tudo que foi aquecido durante os ultimos meses. Eles deixaram, então, o mar lamber sua união, envolta por uma beleza simples - que seria perturbada pela humanice contida no tal organismo, mas que continuaria existindo simples - e profundamente acolhedora.
Talvez a frágil orquestra orgânica nunca tenha sentido tanta segurança e talvez nunca tenha tido tanto a perder como aquilo que acabara de ganhar. Havia chegado a hora dos versos tão cuidadosamente decorados: "... Eis o momento, sejâmo-lo, pra quê pensamento?". Foi quando enfim começou a fazer parte do que tanto queria. Esse outro ser extamaente igual a si em muitos aspectos lhe completava de tal maneira, como se tudo em si fosse metade.
Um estado de alerta eterno para o que só aconteceria dalí a algumas semanas - aquele conjunto de coisas bombeantes, viscosas e correntes não sabia agir muito convenientemente; como até hoje não sabe.
O que aconteceria enfim era o corpo esperado, embaixo do qual ele caberia tão perfeitamente bem. A plenitude que se manifestava ao abraçá-lo apertado, sentindo que aquilo estava mesmo alí, não poderia ser explicada a um corpo que nunca a tenha sentido. Andar com ele na rua, na areia quente era andar rumo a tudo que foi aquecido durante os ultimos meses. Eles deixaram, então, o mar lamber sua união, envolta por uma beleza simples - que seria perturbada pela humanice contida no tal organismo, mas que continuaria existindo simples - e profundamente acolhedora.
Talvez a frágil orquestra orgânica nunca tenha sentido tanta segurança e talvez nunca tenha tido tanto a perder como aquilo que acabara de ganhar. Havia chegado a hora dos versos tão cuidadosamente decorados: "... Eis o momento, sejâmo-lo, pra quê pensamento?". Foi quando enfim começou a fazer parte do que tanto queria. Esse outro ser extamaente igual a si em muitos aspectos lhe completava de tal maneira, como se tudo em si fosse metade.
quarta-feira, 26 de março de 2008
On his own hill...
E mesmo quando se encontra, se encontra em outro lugar..
Os lugares só são diferentes porque precisam ser outros lugares..
E em outros lugares, outras pessoas..
Se tem uma sintonia diferente em volta, você está numa ilha..
O que quer dizer que você está sozinho, o que não quer dizer que você esteja errando..
Com o sorriso bobo, parado no topo da colina.
E o que quer que digam, você ainda consegue enxergar a linha.. que aponta pra frente, nua e firme. E que ninguém mais vê.. Ninguém mais ouve a linha continuante.
Ninguém que tenha a mão perto o suficiente pra você pegar.
Uma outra ilha.
São perdidos alagados pelo que não vêem, mas ainda assim seus mundos são inteiros, como os meus. Perdidos alagados pelo que não vêem que eu vejo.
Perdidos só de mim, mas ainda estão inteiros. E longe demais. E azuis.
Sinto que pode chegar a hora em que eu não veja mais ninguém além de quem não vejo - Os que vi - ninguém além das ilhas distantes.
Porque a gente parecia inteiro, mesmo tendo só dezesseis. E quando dezoito, e quando dezessete.
Ser deixado falando sozinho trinta e sete vezes por dia... sentar sozinho nas escadarias.. Dividir tudo sozinho. Na sua própria montanha, com o sol nos olhos. Ninguém pra prestar atenção, ninguém pra prestar atenção em você.
E ninguém parece querer conhecer você, eles vêem você como só um bobo... No topo de sua própria ilha, com o sol nascendo dos seus olhos.
Os lugares só são diferentes porque precisam ser outros lugares..
E em outros lugares, outras pessoas..
Se tem uma sintonia diferente em volta, você está numa ilha..
O que quer dizer que você está sozinho, o que não quer dizer que você esteja errando..
Com o sorriso bobo, parado no topo da colina.
E o que quer que digam, você ainda consegue enxergar a linha.. que aponta pra frente, nua e firme. E que ninguém mais vê.. Ninguém mais ouve a linha continuante.
Ninguém que tenha a mão perto o suficiente pra você pegar.
Uma outra ilha.
São perdidos alagados pelo que não vêem, mas ainda assim seus mundos são inteiros, como os meus. Perdidos alagados pelo que não vêem que eu vejo.
Perdidos só de mim, mas ainda estão inteiros. E longe demais. E azuis.
Sinto que pode chegar a hora em que eu não veja mais ninguém além de quem não vejo - Os que vi - ninguém além das ilhas distantes.
Porque a gente parecia inteiro, mesmo tendo só dezesseis. E quando dezoito, e quando dezessete.
Ser deixado falando sozinho trinta e sete vezes por dia... sentar sozinho nas escadarias.. Dividir tudo sozinho. Na sua própria montanha, com o sol nos olhos. Ninguém pra prestar atenção, ninguém pra prestar atenção em você.
E ninguém parece querer conhecer você, eles vêem você como só um bobo... No topo de sua própria ilha, com o sol nascendo dos seus olhos.
sábado, 29 de setembro de 2007
Você me diz que tenho olhos de dinossauro.
Pensamentos. Saem de você sem que você os controle.
É doído tentar contê-los... e tentar fazer com que só te façam bem.
É puro e doentio tentar ser puro e ignorar a humanidade que tem em você.
Não é.
Eu sou uma coisa que passa e há coisas passando por mim.
Eu preciso sair sem nome por aí...
Com uma flor na mão, um menino.
De novo puro e bom. Como já foi um dia.
Mesmo que deixem bem claro que meninos não brincam com flores.
Um pátio cheio de escola, e o que a gente descobria no nosso mundo pequeno era leve.
A gente dividia e era bom... Cada "olha só!"...
Preciso ir vendo que é puro... Vendo que também não tem maldade.
Porque amor e maldade não são amigos.
Eu tenho um amor grande no peito. Eu tenho uma vida toda em mim.
Eu nasci muitas vezes em mim depois das vezes em que morri.
E quando eu vejo as fatias da minha vida em cima da mesa elas parecem tão antigas, e me parecem bem feitas.
Quando eu acabar, eu quero olhar e vê-las com um sorriso nos olhos. E isso cabe.
Eu te amo.
É como quando a gente era criança.
Eu te amo.
É doído tentar contê-los... e tentar fazer com que só te façam bem.
É puro e doentio tentar ser puro e ignorar a humanidade que tem em você.
Não é.
Eu sou uma coisa que passa e há coisas passando por mim.
Eu preciso sair sem nome por aí...
Com uma flor na mão, um menino.
De novo puro e bom. Como já foi um dia.
Mesmo que deixem bem claro que meninos não brincam com flores.
Um pátio cheio de escola, e o que a gente descobria no nosso mundo pequeno era leve.
A gente dividia e era bom... Cada "olha só!"...
Preciso ir vendo que é puro... Vendo que também não tem maldade.
Porque amor e maldade não são amigos.
Eu tenho um amor grande no peito. Eu tenho uma vida toda em mim.
Eu nasci muitas vezes em mim depois das vezes em que morri.
E quando eu vejo as fatias da minha vida em cima da mesa elas parecem tão antigas, e me parecem bem feitas.
Quando eu acabar, eu quero olhar e vê-las com um sorriso nos olhos. E isso cabe.
Eu te amo.
É como quando a gente era criança.
Eu te amo.
domingo, 15 de julho de 2007
Ontem.
Hoje está todinho sobre mim
pesado sobre mim, cheio dessas coisas horrorosas.
Amanhã! Amanhã!
Te quero muito, Amanhã!
E vai ser difícil sair desse hoje tão impregnado e concreto.
Eu suguei o céu e o inferno compactados e abri meus olhos diferente.
Eu, de vez em quando levantava a cabeça e deixava cair um sol em cada olho, e assim eu me sentia consertado.
Amanhã, o que eu fiz hoje?
Eu pensava que me conhecia...
Amanhã, vem logo, Amanhã!
Me tira desse hoje tão pesado!
Seja logo outro dia!
Não consigo ver-te vindo como antes sempre via.
Ficou sujo, sujo, sujo.
pesado sobre mim, cheio dessas coisas horrorosas.
Amanhã! Amanhã!
Te quero muito, Amanhã!
E vai ser difícil sair desse hoje tão impregnado e concreto.
Eu suguei o céu e o inferno compactados e abri meus olhos diferente.
Eu, de vez em quando levantava a cabeça e deixava cair um sol em cada olho, e assim eu me sentia consertado.
Amanhã, o que eu fiz hoje?
Eu pensava que me conhecia...
Amanhã, vem logo, Amanhã!
Me tira desse hoje tão pesado!
Seja logo outro dia!
Não consigo ver-te vindo como antes sempre via.
Ficou sujo, sujo, sujo.
sábado, 7 de abril de 2007
Os restos das caixas que se vão é o que me faz continuar lutando ( poeminha infeliz)
Eu sou um bichinho pequenininho dentro de uma caixa. E eu tenho que me libertar dessa caixa, essa caixa me oprime!
A caixa intensa, com seus quatro cantos bem fundados a minha volta, sobre mim, em todo lugar...
Ela é tudo. Às vezes eu acho que quando eu enfim conseguir sair dela eu vou morrer; é que ela é tão presente e firme que às vezes a vida e a caixa se confundem.
Pois balançarei minha vida aqui dentro, então. Forçarei, farei pressão até que ela ceda.
E enfim a caixa se parte, e eu descubro que sou um bichinho um pouco maior (dentro dela eu não podia ver o meu tamanho). E - que surpresa infeliz! - descubro que a caixinha estava dentro de uma outra caixa. Que me oprime agora, da qual preciso me libertar...
A caixa intensa, com seus quatro cantos bem fundados a minha volta, sobre mim, em todo lugar...
Ela é tudo. Às vezes eu acho que quando eu enfim conseguir sair dela eu vou morrer; é que ela é tão presente e firme que às vezes a vida e a caixa se confundem.
Pois balançarei minha vida aqui dentro, então. Forçarei, farei pressão até que ela ceda.
E enfim a caixa se parte, e eu descubro que sou um bichinho um pouco maior (dentro dela eu não podia ver o meu tamanho). E - que surpresa infeliz! - descubro que a caixinha estava dentro de uma outra caixa. Que me oprime agora, da qual preciso me libertar...
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terça-feira, 3 de abril de 2007
Renato
Um corpo boiando no rio, que vai só onde o rio consegue ir, está feliz por estar morto.
É preciso aprender a sentir, tatear a água com o corpo, fazer a pele te revelar o meio.
É preciso afundar, às vezes é preciso. Já morri e renasci várias vezes neste dia,
é preciso aprender a sentir.
Minha mente está nervosa, dando formiga, porque eu ainda não sei como sentir; viver é ter culpa.
Existe a morte de não se viver e a morte de se viver de um outro jeito, por não saber no que me enquadro
eu fico louco, sem rumo, indo além de tudo, além de mim,
além do que se pode entender.
Meu corpo cai sem majestade, feio e vazio sobre a cama, e eu não sei o que fazer de mim porque eu não sei como sentir.
Na rua o tempo estancou quente e seco por culpa do silêncio.
A árvore ávida, altiva sobre o fundo branco do muro parou.
O dia parou e eu estou no meio,
sem sentir nada nesse ínterim,
nem calmo nem agitado, apenas parado.
Alguma coisa que havia antes começado subitamente não continua.
O céu parou azul e calmo.
Seu pai morreu e o cemitério é frio e calmo, cansado e calmo, vazio e calmo.
Te digo, é preciso aprender a seguir, é preciso aprender a nadar rio acima,
pra onde quiser.
Agora esteja de verdade, cada parte sua, sentidos agudos. O choro da água,
o vento no rosto, a paz que dá na pele, a terra se mostrando.
Saber ver a coisa, se concentrar disperso em aprender a enxergar.
É preciso aprender a não estar morto.
É preciso aprender a sentir, tatear a água com o corpo, fazer a pele te revelar o meio.
É preciso afundar, às vezes é preciso. Já morri e renasci várias vezes neste dia,
é preciso aprender a sentir.
Minha mente está nervosa, dando formiga, porque eu ainda não sei como sentir; viver é ter culpa.
Existe a morte de não se viver e a morte de se viver de um outro jeito, por não saber no que me enquadro
eu fico louco, sem rumo, indo além de tudo, além de mim,
além do que se pode entender.
Meu corpo cai sem majestade, feio e vazio sobre a cama, e eu não sei o que fazer de mim porque eu não sei como sentir.
Na rua o tempo estancou quente e seco por culpa do silêncio.
A árvore ávida, altiva sobre o fundo branco do muro parou.
O dia parou e eu estou no meio,
sem sentir nada nesse ínterim,
nem calmo nem agitado, apenas parado.
Alguma coisa que havia antes começado subitamente não continua.
O céu parou azul e calmo.
Seu pai morreu e o cemitério é frio e calmo, cansado e calmo, vazio e calmo.
Te digo, é preciso aprender a seguir, é preciso aprender a nadar rio acima,
pra onde quiser.
Agora esteja de verdade, cada parte sua, sentidos agudos. O choro da água,
o vento no rosto, a paz que dá na pele, a terra se mostrando.
Saber ver a coisa, se concentrar disperso em aprender a enxergar.
É preciso aprender a não estar morto.
sexta-feira, 30 de março de 2007
Um dia...
Vontade tão grande que só Deus atalha. O silêncio tinindo no ouvido. Na infância, uma geladeira bege sobre o piso verde e gelado da cozinha fazia o mesmo barulho que o silêncio faz, todo meio dia quando o almoço sobre a mesa enchia a casa com cheiro de carne, mas ninguém ainda tinha chegado.
Aquelas fotos em preto e branco nas paredes, em molduras detalhadas e simples, a falta de gente... Eu me deitava no chão verde, na sala, os braços abertos, e fazia nada, dormia acordado. Fitava as telhas altas, marrons, nelas tinham manchas brancas do frio da chuva que formavam desenhos.
A manhã passou rápido, escondida. Olhei para o lado, uma televisão cinza e quebrada na estante de madeira preta. Imaginei um filme passando: moças andando a cavalo, conversas entre senhores, gente grande me olhando de cima, em preto e branco, donos de si mesmos, sabedores das coisas.
- Mãe, hoje eu já tenho cinco anos?
- Tenha paciência! – voz calma e baixa.
Uma mulher de cabelos amarelados e altos era minha mãe, mas não era. Ela estava sozinha em casa, sozinha comigo. Na casa sempre escura. Esperando pelos outros que chegariam e que comeriam tudo silenciosamente, dentro deles mesmos enquanto estavam à mesa. E eu reparava neles, reparava bem neles, feliz por saber como eu seria dali a alguns anos - calado e faminto, voltando do trabalho.
A carne sendo comida por eles, passando por seus lábios vermelhos e grossos, bonitos, se desfazendo entre seus dentes e descendo por suas gargantas. Pobre gado. Assim que eu fosse forte, encorpado, como os dois homens, meus tios, era o que eu iria fazer.
Levantam-se, agora estão na sala, os dois. Eles conversam lentamente e baixo, só ouço seus timbres grossos, não consigo entender o que dizem. A mulher, minha mãe, junta a louça branco-amarelada da mesa, fazendo um barulhinho com os talheres. A menina-mulher, minha tia, com os olhos vazios, ainda sentada à mesa, parece ter despertado de súbito e agora terminha de desfazer a mesa e põe-se diante da pia limpando a louça.
Agora todos dormem em seus quartos, a casa escura e algumas frestas de luz entrando por pequenos espaços entre as telhas. Eu também estou deitado, os sonhos do começo da tarde são sempre embaralhados com a realidade: escurecidos e frios como a própria casa, cheios de coisas, bonitos e assustadores. Os olhos pesando sem que eu entenda, meu corpo leve boiando sobre a cama, vai desaparecendo até que eu não sinta mais ele. Depois eu os ouço saírem, não sei se ainda adormecido ou acordado.
A tarde é fria e calma com o silêncio vindo da geladeira, os retratos e minha mãe loura. Ela está no quarto, com a porta entreaberta lendo algum livro, fazendo alguma coisa que eu não sei o quê. Uma vez eu a ouvi chorar baixo no quarto, fui andando devagar até a porta, ela estava de bruços sobre a cama, a marca de suas costas largas aparecia sob o vestido de pano fino e brilhante. Um pouco de suas pernas brancas também estavam à mostra contrastando com o vestido escuro. Ela se virou bruscamente com os olhos vermelhos e arreganhados, num susto.
- O que houve?
- Seu pai! - sua voz saiu desguarnecida, meio gritada, como um trovão fino. Triste e falha.
- E quem é?
- Saia daqui! Saia daqui! Vá brincar na sala! Já! – agora a voz tinha outro tom, diferente, agitado e atacado, confuso, não sereno e triste como me lembrava.
Não tenho que mexer em nada, sei que se eu mexer as bruxas matarão minha mãe. Sei que é assim, eu descobri o joguinho, e agora o tempo todo tenho que tentar descobrir o que tenho que fazer pra que eles fiquem bem. Vi dois pedacinhos de telha no chão, perto da porta do quintal, eu poderia pega-los pra brincar como se fossem homenzinhos, mas não tenho que mexer em nada. Se eu mexer eu perco o jogo e as bruxas matam a mulher-mãe-loura. Não posso mexer, mas encostei minha cabeça no chão e vejo os dois pedacinhos de telha um sobre o outro, parece que eu já tinha feito isso antes, já tinha baixado minha cabeça antes neste mesmo instante e visto os dois cacos de telha marrons assim. Parece que eu repeti, mas eu sei que não repeti. Isso já aconteceu antes enquanto eu cantarolava baixinho.
A tarde vai amarelando até que se torna completamente laranja e se joga toda dentro da casa, até que vai embora. E eu ouço seus passos se aproximando, todos juntos, os dois homens calados e a menina-mulher, que passou por último pela porta. Depois dos dois moços de ombros grandes, acolhedores, ela passou com sua pele branca um pouco rosada, lábios vermelhos, delicados, e seu cabelo escuro, usa um vestido preto e justo. Ela tranca a porta eximiamente.
Os dois homens dividem o mesmo quarto, paredes cor de areia e o piso verde estendido sob seus pés. Um guarda-roupa preto - provavelmente feito da mesma madeira que a estante – entre as duas camas. Um deles senta sobre a cama e se descalça dos sapatos lustrosos e grandes. Guarda-os junto com os outros, depois se despe com destreza, seu corpo branco e liso aparece debaixo da camisa azulada. Ele, então, se enrola numa toalha branca e entra no banheiro. Liga o chuveiro e a água canta um som abafado que eu fico ouvindo enquanto olho seus sapatos da entrada do quarto. O outro homem está na cozinha sentado à mesa num local onde, daqui, só consigo ver sua sombra. Ele tem cartas nas mãos, sei por que as vi assim que entrou. Suas mãos fortes, seguras, dedos grossos seguravam as pequenas cartas castanho-claras.
As duas moças estão no outro quarto, elas conversam entretidas; a moça diz vagarosamente e em tom melancólico algumas coisas que a mãe loura escuta com atenção, com o olhar ansioso, quase saltando sobre a outra.
Com a noite a casa parece ter ficado menor, ouvem-se poucos sons mesmo com todos eles em casa. Eles conversam baixo.
A porta do corredor pra sala é larga, uma porta em forma de “T”: mais larga em cima e com dois “murinhos” embaixo – um de cada lado. Eu vou caminhando até ela, a sala cheia de móveis é sorumbática, vazia, quando olho pra ela todos os pensamentos se arrastam devagar e se concentram na minha testa. Ela parece que me observa fria. Violinos imaginários começam a tocar uma canção agoniada, meus olhos ficam meio enjoados.
O canto da água parou de repente, o homem acaba de sair do banho.
A cozinha é a parte mais clara da casa - que não tem muitas janelas - e ainda é meio sombria, a sala é o primeiro cômodo e não há janelas nela. O ar dentro da casa é denso e morno sobre os móveis todos frios, negros; nas paredes, faces aflitas, meio assustadas, o chão pequeno se esconde no escuro sob o tapete, sob o sofá baixo que tem uma armação de madeira e a parte onde se senta não é nem tecido nem couro, é alguma coisa entre os dois.
A mesa está posta, a menina-moça-tia passa por mim e deixa o cheiro de sabonete que vem da sua pele elástica, macia. Penso nela passando o sabonete feliz na sua pele que dá gritinhos de elasticidade. Seu vestido é vermelho-escurecido e cobre com esmero suas pernas brancas e grossas. Eles comem calmos em seus talheres; a comida limpa, fina, seca e também calada, estirada tímida sobre a mesa. Aquela hora se estende lentamente, nada acontece mas ela vai passando.
Pouco depois os dois homens conversam entre si a caminho do quarto, uma conversa lenta, de vez em quando algum diz algo, calam-se por um momento e depois vem uma resposta...
A noite e o silêncio ficaram mais graves, as duas mulheres olham fotos sentadas sobre a colcha branco-azulada da cama, a mulher-mãe suspira tristemente; a moça-tia tem os olhos parados sobre uma das fotos. A tia outra vez passa por mim indo em direção ao seu quarto só que dessa vez não sinto o cheiro bom do sabonete. A luz do quarto dos tios foi apagada, a mãe-mulher guarda as fotos numa caixa quadrada e fina, tranca-a dentro do guarda-roupas preto fazendo tudo bem devagar, como em uma despedida; veste uma camisola clara, olha no espelho com uma expressão quase de choro, se vira e apaga a luz.
A luz do quarto da menina, ainda acesa, luta fraquinha contra a escuridão da casa inteira, mas logo se apaga e a sombra prevalece, ganha a lutazinha. Abro bem meus olhos e eles não funcionam, só consigo ver a própria escuridão se contorcendo, milhares de pontinhos verdes e roxos se empurrando que se transformam em manchas roxo-esverdeadas se esvaecendo. O escuro é aconchegante, meus pensamentos já vêm sem que eu os provoque, eu já sinto meus olhos se entregando... Um pesinho sobre cada um... Meu corpo mole, na cama macia...
Na madrugada um poço fundo, a água preta me chamando, as plantinhas verdes se agarrando nas paredes redondas. A água se mexia viva, me chamando, me chamando... Saí da casa escura, tem uma lua branca no céu, clara, limpa.
O céu é grande, tudo é grande. O frio é vivo, a escuridão clara é viva, uma claridade fria. Eu sozinho e sinto olhares. A água no fundo do poço me gritando. Eu vou, eu não vou...
Eu me misturo à água, eu me dissolvo, não sou escuro, eu percebo meu corpo pequeno e branco nessa água, se diluindo. Perdi o piso verde, o silêncio da geladeira; perdi o frio da casa escura que me aconchegava tão bom a mente. A nuvem preta pára em frente à lua. Escureceu. Longe, longe, longe... Bom.
No meu mundo a minha própria razão se erigia tímida, mas ia se tornando forte e absoluta, não importava sua fina espessura - um véu transparente que embrulhava os pensamentos lentamente e os escondia de pouquinho da verdade ríspida. Um televisor quebrado, santos, bruxinhas... Todas essas coisas envelhecidas na minha mente, girando, girando...
Eu tentava fugir mas não conseguia. De fora eu era um cavaleiro magro e perdedor, deitado em seu leito pobre, sujo, fedido. Uma vitrola tocando “The Beatles” longe, triste. Eu era diferente, eu não sentia como todos sentiam, eu aprendi de outro jeito. Ninguém me acompanhou.
Se eu não fosse de verdade... Eu seria uma personagem; eu seria uma personagem plana que não se mexesse, que não pudesse. Uma personagem sequinha, que não sabe, consta, mas não sabe. “O tempo está acabando”. O tempo todo eu posso pensar “o tempo está acabando”. Está passando agora, agora, agorinha. Antes eu tinha mais do que agora, mesmo sendo que nunca tive nada meu, antes eu pensava bom. Meu pensamento, ele está doente agora, ele fede como carne apodrecida mergulhada em vinagre; meus pensamentos incomodam, doem, alguém podia tirá-los de mim e limpá-los, eu ficaria melhor.
As pessoas me olham de volta inteiras, dentro de si como os tios na mesa; seus olhares vão enganchando em mim enquanto eu passo.
Me deito no chão verde friozinho, todos eles me olhando, tremidos, parados. Eu me sinto uma terra fofinha onde ninguém nunca pisou, me sinto uma mata virgem, santa, intocada, perdoada. Morro, morro, morro. Morrer não acaba nunca...
Aquelas fotos em preto e branco nas paredes, em molduras detalhadas e simples, a falta de gente... Eu me deitava no chão verde, na sala, os braços abertos, e fazia nada, dormia acordado. Fitava as telhas altas, marrons, nelas tinham manchas brancas do frio da chuva que formavam desenhos.
A manhã passou rápido, escondida. Olhei para o lado, uma televisão cinza e quebrada na estante de madeira preta. Imaginei um filme passando: moças andando a cavalo, conversas entre senhores, gente grande me olhando de cima, em preto e branco, donos de si mesmos, sabedores das coisas.
- Mãe, hoje eu já tenho cinco anos?
- Tenha paciência! – voz calma e baixa.
Uma mulher de cabelos amarelados e altos era minha mãe, mas não era. Ela estava sozinha em casa, sozinha comigo. Na casa sempre escura. Esperando pelos outros que chegariam e que comeriam tudo silenciosamente, dentro deles mesmos enquanto estavam à mesa. E eu reparava neles, reparava bem neles, feliz por saber como eu seria dali a alguns anos - calado e faminto, voltando do trabalho.
A carne sendo comida por eles, passando por seus lábios vermelhos e grossos, bonitos, se desfazendo entre seus dentes e descendo por suas gargantas. Pobre gado. Assim que eu fosse forte, encorpado, como os dois homens, meus tios, era o que eu iria fazer.
Levantam-se, agora estão na sala, os dois. Eles conversam lentamente e baixo, só ouço seus timbres grossos, não consigo entender o que dizem. A mulher, minha mãe, junta a louça branco-amarelada da mesa, fazendo um barulhinho com os talheres. A menina-mulher, minha tia, com os olhos vazios, ainda sentada à mesa, parece ter despertado de súbito e agora terminha de desfazer a mesa e põe-se diante da pia limpando a louça.
Agora todos dormem em seus quartos, a casa escura e algumas frestas de luz entrando por pequenos espaços entre as telhas. Eu também estou deitado, os sonhos do começo da tarde são sempre embaralhados com a realidade: escurecidos e frios como a própria casa, cheios de coisas, bonitos e assustadores. Os olhos pesando sem que eu entenda, meu corpo leve boiando sobre a cama, vai desaparecendo até que eu não sinta mais ele. Depois eu os ouço saírem, não sei se ainda adormecido ou acordado.
A tarde é fria e calma com o silêncio vindo da geladeira, os retratos e minha mãe loura. Ela está no quarto, com a porta entreaberta lendo algum livro, fazendo alguma coisa que eu não sei o quê. Uma vez eu a ouvi chorar baixo no quarto, fui andando devagar até a porta, ela estava de bruços sobre a cama, a marca de suas costas largas aparecia sob o vestido de pano fino e brilhante. Um pouco de suas pernas brancas também estavam à mostra contrastando com o vestido escuro. Ela se virou bruscamente com os olhos vermelhos e arreganhados, num susto.
- O que houve?
- Seu pai! - sua voz saiu desguarnecida, meio gritada, como um trovão fino. Triste e falha.
- E quem é?
- Saia daqui! Saia daqui! Vá brincar na sala! Já! – agora a voz tinha outro tom, diferente, agitado e atacado, confuso, não sereno e triste como me lembrava.
Não tenho que mexer em nada, sei que se eu mexer as bruxas matarão minha mãe. Sei que é assim, eu descobri o joguinho, e agora o tempo todo tenho que tentar descobrir o que tenho que fazer pra que eles fiquem bem. Vi dois pedacinhos de telha no chão, perto da porta do quintal, eu poderia pega-los pra brincar como se fossem homenzinhos, mas não tenho que mexer em nada. Se eu mexer eu perco o jogo e as bruxas matam a mulher-mãe-loura. Não posso mexer, mas encostei minha cabeça no chão e vejo os dois pedacinhos de telha um sobre o outro, parece que eu já tinha feito isso antes, já tinha baixado minha cabeça antes neste mesmo instante e visto os dois cacos de telha marrons assim. Parece que eu repeti, mas eu sei que não repeti. Isso já aconteceu antes enquanto eu cantarolava baixinho.
A tarde vai amarelando até que se torna completamente laranja e se joga toda dentro da casa, até que vai embora. E eu ouço seus passos se aproximando, todos juntos, os dois homens calados e a menina-mulher, que passou por último pela porta. Depois dos dois moços de ombros grandes, acolhedores, ela passou com sua pele branca um pouco rosada, lábios vermelhos, delicados, e seu cabelo escuro, usa um vestido preto e justo. Ela tranca a porta eximiamente.
Os dois homens dividem o mesmo quarto, paredes cor de areia e o piso verde estendido sob seus pés. Um guarda-roupa preto - provavelmente feito da mesma madeira que a estante – entre as duas camas. Um deles senta sobre a cama e se descalça dos sapatos lustrosos e grandes. Guarda-os junto com os outros, depois se despe com destreza, seu corpo branco e liso aparece debaixo da camisa azulada. Ele, então, se enrola numa toalha branca e entra no banheiro. Liga o chuveiro e a água canta um som abafado que eu fico ouvindo enquanto olho seus sapatos da entrada do quarto. O outro homem está na cozinha sentado à mesa num local onde, daqui, só consigo ver sua sombra. Ele tem cartas nas mãos, sei por que as vi assim que entrou. Suas mãos fortes, seguras, dedos grossos seguravam as pequenas cartas castanho-claras.
As duas moças estão no outro quarto, elas conversam entretidas; a moça diz vagarosamente e em tom melancólico algumas coisas que a mãe loura escuta com atenção, com o olhar ansioso, quase saltando sobre a outra.
Com a noite a casa parece ter ficado menor, ouvem-se poucos sons mesmo com todos eles em casa. Eles conversam baixo.
A porta do corredor pra sala é larga, uma porta em forma de “T”: mais larga em cima e com dois “murinhos” embaixo – um de cada lado. Eu vou caminhando até ela, a sala cheia de móveis é sorumbática, vazia, quando olho pra ela todos os pensamentos se arrastam devagar e se concentram na minha testa. Ela parece que me observa fria. Violinos imaginários começam a tocar uma canção agoniada, meus olhos ficam meio enjoados.
O canto da água parou de repente, o homem acaba de sair do banho.
A cozinha é a parte mais clara da casa - que não tem muitas janelas - e ainda é meio sombria, a sala é o primeiro cômodo e não há janelas nela. O ar dentro da casa é denso e morno sobre os móveis todos frios, negros; nas paredes, faces aflitas, meio assustadas, o chão pequeno se esconde no escuro sob o tapete, sob o sofá baixo que tem uma armação de madeira e a parte onde se senta não é nem tecido nem couro, é alguma coisa entre os dois.
A mesa está posta, a menina-moça-tia passa por mim e deixa o cheiro de sabonete que vem da sua pele elástica, macia. Penso nela passando o sabonete feliz na sua pele que dá gritinhos de elasticidade. Seu vestido é vermelho-escurecido e cobre com esmero suas pernas brancas e grossas. Eles comem calmos em seus talheres; a comida limpa, fina, seca e também calada, estirada tímida sobre a mesa. Aquela hora se estende lentamente, nada acontece mas ela vai passando.
Pouco depois os dois homens conversam entre si a caminho do quarto, uma conversa lenta, de vez em quando algum diz algo, calam-se por um momento e depois vem uma resposta...
A noite e o silêncio ficaram mais graves, as duas mulheres olham fotos sentadas sobre a colcha branco-azulada da cama, a mulher-mãe suspira tristemente; a moça-tia tem os olhos parados sobre uma das fotos. A tia outra vez passa por mim indo em direção ao seu quarto só que dessa vez não sinto o cheiro bom do sabonete. A luz do quarto dos tios foi apagada, a mãe-mulher guarda as fotos numa caixa quadrada e fina, tranca-a dentro do guarda-roupas preto fazendo tudo bem devagar, como em uma despedida; veste uma camisola clara, olha no espelho com uma expressão quase de choro, se vira e apaga a luz.
A luz do quarto da menina, ainda acesa, luta fraquinha contra a escuridão da casa inteira, mas logo se apaga e a sombra prevalece, ganha a lutazinha. Abro bem meus olhos e eles não funcionam, só consigo ver a própria escuridão se contorcendo, milhares de pontinhos verdes e roxos se empurrando que se transformam em manchas roxo-esverdeadas se esvaecendo. O escuro é aconchegante, meus pensamentos já vêm sem que eu os provoque, eu já sinto meus olhos se entregando... Um pesinho sobre cada um... Meu corpo mole, na cama macia...
Na madrugada um poço fundo, a água preta me chamando, as plantinhas verdes se agarrando nas paredes redondas. A água se mexia viva, me chamando, me chamando... Saí da casa escura, tem uma lua branca no céu, clara, limpa.
O céu é grande, tudo é grande. O frio é vivo, a escuridão clara é viva, uma claridade fria. Eu sozinho e sinto olhares. A água no fundo do poço me gritando. Eu vou, eu não vou...
Eu me misturo à água, eu me dissolvo, não sou escuro, eu percebo meu corpo pequeno e branco nessa água, se diluindo. Perdi o piso verde, o silêncio da geladeira; perdi o frio da casa escura que me aconchegava tão bom a mente. A nuvem preta pára em frente à lua. Escureceu. Longe, longe, longe... Bom.
No meu mundo a minha própria razão se erigia tímida, mas ia se tornando forte e absoluta, não importava sua fina espessura - um véu transparente que embrulhava os pensamentos lentamente e os escondia de pouquinho da verdade ríspida. Um televisor quebrado, santos, bruxinhas... Todas essas coisas envelhecidas na minha mente, girando, girando...
Eu tentava fugir mas não conseguia. De fora eu era um cavaleiro magro e perdedor, deitado em seu leito pobre, sujo, fedido. Uma vitrola tocando “The Beatles” longe, triste. Eu era diferente, eu não sentia como todos sentiam, eu aprendi de outro jeito. Ninguém me acompanhou.
Se eu não fosse de verdade... Eu seria uma personagem; eu seria uma personagem plana que não se mexesse, que não pudesse. Uma personagem sequinha, que não sabe, consta, mas não sabe. “O tempo está acabando”. O tempo todo eu posso pensar “o tempo está acabando”. Está passando agora, agora, agorinha. Antes eu tinha mais do que agora, mesmo sendo que nunca tive nada meu, antes eu pensava bom. Meu pensamento, ele está doente agora, ele fede como carne apodrecida mergulhada em vinagre; meus pensamentos incomodam, doem, alguém podia tirá-los de mim e limpá-los, eu ficaria melhor.
As pessoas me olham de volta inteiras, dentro de si como os tios na mesa; seus olhares vão enganchando em mim enquanto eu passo.
Me deito no chão verde friozinho, todos eles me olhando, tremidos, parados. Eu me sinto uma terra fofinha onde ninguém nunca pisou, me sinto uma mata virgem, santa, intocada, perdoada. Morro, morro, morro. Morrer não acaba nunca...
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