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O que posso contar é a minha versão do mundo, que é na verdade tudo o que eu sou, porque a gente só é o que percebe.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Um dia...

Vontade tão grande que só Deus atalha. O silêncio tinindo no ouvido. Na infância, uma geladeira bege sobre o piso verde e gelado da cozinha fazia o mesmo barulho que o silêncio faz, todo meio dia quando o almoço sobre a mesa enchia a casa com cheiro de carne, mas ninguém ainda tinha chegado.
Aquelas fotos em preto e branco nas paredes, em molduras detalhadas e simples, a falta de gente... Eu me deitava no chão verde, na sala, os braços abertos, e fazia nada, dormia acordado. Fitava as telhas altas, marrons, nelas tinham manchas brancas do frio da chuva que formavam desenhos.

A manhã passou rápido, escondida. Olhei para o lado, uma televisão cinza e quebrada na estante de madeira preta. Imaginei um filme passando: moças andando a cavalo, conversas entre senhores, gente grande me olhando de cima, em preto e branco, donos de si mesmos, sabedores das coisas.
- Mãe, hoje eu já tenho cinco anos?
- Tenha paciência! – voz calma e baixa.

Uma mulher de cabelos amarelados e altos era minha mãe, mas não era. Ela estava sozinha em casa, sozinha comigo. Na casa sempre escura. Esperando pelos outros que chegariam e que comeriam tudo silenciosamente, dentro deles mesmos enquanto estavam à mesa. E eu reparava neles, reparava bem neles, feliz por saber como eu seria dali a alguns anos - calado e faminto, voltando do trabalho.
A carne sendo comida por eles, passando por seus lábios vermelhos e grossos, bonitos, se desfazendo entre seus dentes e descendo por suas gargantas. Pobre gado. Assim que eu fosse forte, encorpado, como os dois homens, meus tios, era o que eu iria fazer.
Levantam-se, agora estão na sala, os dois. Eles conversam lentamente e baixo, só ouço seus timbres grossos, não consigo entender o que dizem. A mulher, minha mãe, junta a louça branco-amarelada da mesa, fazendo um barulhinho com os talheres. A menina-mulher, minha tia, com os olhos vazios, ainda sentada à mesa, parece ter despertado de súbito e agora terminha de desfazer a mesa e põe-se diante da pia limpando a louça.


Agora todos dormem em seus quartos, a casa escura e algumas frestas de luz entrando por pequenos espaços entre as telhas. Eu também estou deitado, os sonhos do começo da tarde são sempre embaralhados com a realidade: escurecidos e frios como a própria casa, cheios de coisas, bonitos e assustadores. Os olhos pesando sem que eu entenda, meu corpo leve boiando sobre a cama, vai desaparecendo até que eu não sinta mais ele. Depois eu os ouço saírem, não sei se ainda adormecido ou acordado.
A tarde é fria e calma com o silêncio vindo da geladeira, os retratos e minha mãe loura. Ela está no quarto, com a porta entreaberta lendo algum livro, fazendo alguma coisa que eu não sei o quê. Uma vez eu a ouvi chorar baixo no quarto, fui andando devagar até a porta, ela estava de bruços sobre a cama, a marca de suas costas largas aparecia sob o vestido de pano fino e brilhante. Um pouco de suas pernas brancas também estavam à mostra contrastando com o vestido escuro. Ela se virou bruscamente com os olhos vermelhos e arreganhados, num susto.
- O que houve?
- Seu pai! - sua voz saiu desguarnecida, meio gritada, como um trovão fino. Triste e falha.
- E quem é?
- Saia daqui! Saia daqui! Vá brincar na sala! Já! – agora a voz tinha outro tom, diferente, agitado e atacado, confuso, não sereno e triste como me lembrava.



Não tenho que mexer em nada, sei que se eu mexer as bruxas matarão minha mãe. Sei que é assim, eu descobri o joguinho, e agora o tempo todo tenho que tentar descobrir o que tenho que fazer pra que eles fiquem bem. Vi dois pedacinhos de telha no chão, perto da porta do quintal, eu poderia pega-los pra brincar como se fossem homenzinhos, mas não tenho que mexer em nada. Se eu mexer eu perco o jogo e as bruxas matam a mulher-mãe-loura. Não posso mexer, mas encostei minha cabeça no chão e vejo os dois pedacinhos de telha um sobre o outro, parece que eu já tinha feito isso antes, já tinha baixado minha cabeça antes neste mesmo instante e visto os dois cacos de telha marrons assim. Parece que eu repeti, mas eu sei que não repeti. Isso já aconteceu antes enquanto eu cantarolava baixinho.
A tarde vai amarelando até que se torna completamente laranja e se joga toda dentro da casa, até que vai embora. E eu ouço seus passos se aproximando, todos juntos, os dois homens calados e a menina-mulher, que passou por último pela porta. Depois dos dois moços de ombros grandes, acolhedores, ela passou com sua pele branca um pouco rosada, lábios vermelhos, delicados, e seu cabelo escuro, usa um vestido preto e justo. Ela tranca a porta eximiamente.
Os dois homens dividem o mesmo quarto, paredes cor de areia e o piso verde estendido sob seus pés. Um guarda-roupa preto - provavelmente feito da mesma madeira que a estante – entre as duas camas. Um deles senta sobre a cama e se descalça dos sapatos lustrosos e grandes. Guarda-os junto com os outros, depois se despe com destreza, seu corpo branco e liso aparece debaixo da camisa azulada. Ele, então, se enrola numa toalha branca e entra no banheiro. Liga o chuveiro e a água canta um som abafado que eu fico ouvindo enquanto olho seus sapatos da entrada do quarto. O outro homem está na cozinha sentado à mesa num local onde, daqui, só consigo ver sua sombra. Ele tem cartas nas mãos, sei por que as vi assim que entrou. Suas mãos fortes, seguras, dedos grossos seguravam as pequenas cartas castanho-claras.
As duas moças estão no outro quarto, elas conversam entretidas; a moça diz vagarosamente e em tom melancólico algumas coisas que a mãe loura escuta com atenção, com o olhar ansioso, quase saltando sobre a outra.

Com a noite a casa parece ter ficado menor, ouvem-se poucos sons mesmo com todos eles em casa. Eles conversam baixo.

A porta do corredor pra sala é larga, uma porta em forma de “T”: mais larga em cima e com dois “murinhos” embaixo – um de cada lado. Eu vou caminhando até ela, a sala cheia de móveis é sorumbática, vazia, quando olho pra ela todos os pensamentos se arrastam devagar e se concentram na minha testa. Ela parece que me observa fria. Violinos imaginários começam a tocar uma canção agoniada, meus olhos ficam meio enjoados.
O canto da água parou de repente, o homem acaba de sair do banho.

A cozinha é a parte mais clara da casa - que não tem muitas janelas - e ainda é meio sombria, a sala é o primeiro cômodo e não há janelas nela. O ar dentro da casa é denso e morno sobre os móveis todos frios, negros; nas paredes, faces aflitas, meio assustadas, o chão pequeno se esconde no escuro sob o tapete, sob o sofá baixo que tem uma armação de madeira e a parte onde se senta não é nem tecido nem couro, é alguma coisa entre os dois.
A mesa está posta, a menina-moça-tia passa por mim e deixa o cheiro de sabonete que vem da sua pele elástica, macia. Penso nela passando o sabonete feliz na sua pele que dá gritinhos de elasticidade. Seu vestido é vermelho-escurecido e cobre com esmero suas pernas brancas e grossas. Eles comem calmos em seus talheres; a comida limpa, fina, seca e também calada, estirada tímida sobre a mesa. Aquela hora se estende lentamente, nada acontece mas ela vai passando.

Pouco depois os dois homens conversam entre si a caminho do quarto, uma conversa lenta, de vez em quando algum diz algo, calam-se por um momento e depois vem uma resposta...
A noite e o silêncio ficaram mais graves, as duas mulheres olham fotos sentadas sobre a colcha branco-azulada da cama, a mulher-mãe suspira tristemente; a moça-tia tem os olhos parados sobre uma das fotos. A tia outra vez passa por mim indo em direção ao seu quarto só que dessa vez não sinto o cheiro bom do sabonete. A luz do quarto dos tios foi apagada, a mãe-mulher guarda as fotos numa caixa quadrada e fina, tranca-a dentro do guarda-roupas preto fazendo tudo bem devagar, como em uma despedida; veste uma camisola clara, olha no espelho com uma expressão quase de choro, se vira e apaga a luz.
A luz do quarto da menina, ainda acesa, luta fraquinha contra a escuridão da casa inteira, mas logo se apaga e a sombra prevalece, ganha a lutazinha. Abro bem meus olhos e eles não funcionam, só consigo ver a própria escuridão se contorcendo, milhares de pontinhos verdes e roxos se empurrando que se transformam em manchas roxo-esverdeadas se esvaecendo. O escuro é aconchegante, meus pensamentos já vêm sem que eu os provoque, eu já sinto meus olhos se entregando... Um pesinho sobre cada um... Meu corpo mole, na cama macia...

Na madrugada um poço fundo, a água preta me chamando, as plantinhas verdes se agarrando nas paredes redondas. A água se mexia viva, me chamando, me chamando... Saí da casa escura, tem uma lua branca no céu, clara, limpa.
O céu é grande, tudo é grande. O frio é vivo, a escuridão clara é viva, uma claridade fria. Eu sozinho e sinto olhares. A água no fundo do poço me gritando. Eu vou, eu não vou...

Eu me misturo à água, eu me dissolvo, não sou escuro, eu percebo meu corpo pequeno e branco nessa água, se diluindo. Perdi o piso verde, o silêncio da geladeira; perdi o frio da casa escura que me aconchegava tão bom a mente. A nuvem preta pára em frente à lua. Escureceu. Longe, longe, longe... Bom.
No meu mundo a minha própria razão se erigia tímida, mas ia se tornando forte e absoluta, não importava sua fina espessura - um véu transparente que embrulhava os pensamentos lentamente e os escondia de pouquinho da verdade ríspida. Um televisor quebrado, santos, bruxinhas... Todas essas coisas envelhecidas na minha mente, girando, girando...
Eu tentava fugir mas não conseguia. De fora eu era um cavaleiro magro e perdedor, deitado em seu leito pobre, sujo, fedido. Uma vitrola tocando “The Beatles” longe, triste. Eu era diferente, eu não sentia como todos sentiam, eu aprendi de outro jeito. Ninguém me acompanhou.

Se eu não fosse de verdade... Eu seria uma personagem; eu seria uma personagem plana que não se mexesse, que não pudesse. Uma personagem sequinha, que não sabe, consta, mas não sabe. “O tempo está acabando”. O tempo todo eu posso pensar “o tempo está acabando”. Está passando agora, agora, agorinha. Antes eu tinha mais do que agora, mesmo sendo que nunca tive nada meu, antes eu pensava bom. Meu pensamento, ele está doente agora, ele fede como carne apodrecida mergulhada em vinagre; meus pensamentos incomodam, doem, alguém podia tirá-los de mim e limpá-los, eu ficaria melhor.
As pessoas me olham de volta inteiras, dentro de si como os tios na mesa; seus olhares vão enganchando em mim enquanto eu passo.

Me deito no chão verde friozinho, todos eles me olhando, tremidos, parados. Eu me sinto uma terra fofinha onde ninguém nunca pisou, me sinto uma mata virgem, santa, intocada, perdoada. Morro, morro, morro. Morrer não acaba nunca...

2 comentários:

Hudson Pereira disse...

Ao ler esse seu texto fui invadido por uma angústia,como se vc pudesse descrever algo que tem sinto,não na mesma escala ou frequência por sermos pessoas distintas,mas a sensação me pareceu a mesma.

Lenonfa disse...

Achei seu texto muito bom Mike! Parece com meu estilo de escrever, eu ja tive vários blogs, e costumava escrever mais no papel mesmo. Mas aqui no meu blog tem uns textos. Se quiser dá uma olhada.

Eu lí em algum lugar um texto que dizia que morremos todos os dias, para renascer no dia seguinte. Então, renasça sempre!